Presidente do GENP fala sobre eleições no IFF

O blog reproduz abaixo a íntegra da entrevista do presidente do Grêmio Estudantil Nilo Peçanha (GENP), Rafhael Victor, publicada no Jornal Folha da Manhã de hoje (31/05).

No IFF, pelo direito de participar

Com 20 anos, no quarto módulo do curso técnico de Telecomunicações, o presidente do grêmio estudantil do campus Campos-Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF, antigo Cefet), Rafhael Victor Fernandes, solicitou em ofício, no dia 28 de janeiro, o direito de participar da elaboração do novo estatuto da escola, aberta desde 29 de dezembro de 2008 pela lei federal 11.892, que transformou todos os Cefet’s do país em IF’s. O convite da reitoria para participar da discussão, com prazo final em 29 de junho, só chegou no dia 22 de abril, quase três meses depois. Para ele, isso evidencia a intenção inicial de não se fazer a eleição do diretor do campus, que o MEC definiu, no máximo, até novembro deste ano.

Folha da Manhã - Essa polêmica em torno da passagem do Cefet-Campos para IFF, com tentativa de adiamento das eleições dos diretores dos campi (antigas unidades) Campos-Centro e Macaé, veio a público a partir da publicação, na Folha, da entrevista do professor Luiz Augusto Caldas, em 26 de abril. Mas para vocês, que vivem a realidade interna da escola, quando e como ela, de fato, começou?
Rafhael Fernandes - Essa polêmica começou a partir do momento que o professor Jefferson (Azevedo) pediu exoneração do seu cargo (de pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação) e afirmou para a comunidade, em carta aberta, que ele pediu essa exoneração porque a reitoria, na reunião de 30 de março, queria adiar a eleição (de diretor do campus Campos-Centro) por três anos...

Folha - O que casaria a eleição do diretor com a eleição...
Rafhael - Para casar com a eleição da reitora (em 2011). E, a partir daí, surgiram várias indagações dos estudantes e professores, do porque isso aconteceu. O Jefferson é um homem de uma integridade ímpar, todo mundo conhece seu trabalho, mesmo fora do IFF; é considerado uma pessoa exemplar, por todos que o conhecem, tanto na parte pessoal quanto profissional. Para ele ter pedido a exoneração do seu cargo, algum motivo tem.

Folha - Mas o que Jefferson denunciou em 30 de março já não havia se anunciado antes, quando o grupo que controla a reitoria adiou as eleição no campus Macaé, que deveria ter ocorrido desde julho de 2008. A própria lei federal 11.892, que transformou os 38 Cefet’s do país em IF’s, é de 29 de dezembro de 2008. Desde então não poderia ter se iniciado a discussão do estatuto e do Plano de Desenvolvimento Interno (PDI), sem os quais não se faz eleição? Não seria melhor ter aproveitado o tempo do que agora correr contra o relógio, para concluir o estatuto e o PDI até o próximo dia 29 de junho, como manda a lei?
Rafhael - Desde 28 de janeiro de 2009 nós requeremos a participação dos representantes do grêmio estudantil na discussão (entrega cópia do ofício 017/2009, datado de 28 de janeiro, assinado por ele e encaminhado à reitora Cibele Daher). Como representante eleito dos estudantes do campus Campos-Centro, eu me senti na obrigação de participar desse movimento, dessa construção do estatuto. Para mim, isso é que é democracia: você poder opinar, poder participar. Um mês após o grêmio estudantil ser empossado...

Folha - Empossado quando?
Rafhael - Se não me engano foi dia 27 de dezembro. Não me lembro a data certa...

Folha - Um pouco antes da publicação da lei 11.892?
Rafhael - Um pouquinho antes da lei. E a gente começou a estudar, ver os processos necessários para eleger o diretor de Campos e vimos a necessidade de se ter o estatuto e o PDI. Então a gente pediu para participar, porque nós somos a voz dos estudantes, porque nós somos o grêmio estudantil.

Folha - Então vocês estudaram a lei e esperaram um mês para o convite da reitoria ser feito?
Rafhel - E como nada foi feito, em 28 de janeiro nós resolvemos cobrar nosso direito de participar.

Folha - E o que aconteceu?
Rafhael - A reitoria ficou muda, fingiu que não ouviu a gente.

Folha - E quando foi curada dessa mudez e dessa surdez?
Rafhael - No dia 22 de abril de 2009, quando a gente recebeu um ofício (entrega a cópia do documento), assinado pela Cibele, pela reitora, solicitando um representante do grêmio e um suplente para participar da discussão do estatuto.

Folha - Quase quatro meses após a lei abrir o prazo à discussão e quase três meses após vocês requerem, em ofício, o direito de participar?
Rafhael - Exatamente. Eu vejo que lá (no IFF), nunca teve essa cultura de um grêmio participar na vida política da escola. Muitos talvez pensem que um grêmio estudantil é sinônimo de festa, de farra, de zoeira. Mas nosso grêmio é um grêmio político, é um grêmio combativo, que quer participar de todas as discussões necessárias ao exercício do direito de votarmos para escolher nossos dirigentes. Nossa bandeira de luta é participar de todas as coisas inerentes à vida dos estudantes na instituição, não é só fazer festa, fazer arraiá, não. Talvez a escola tenha pensado que foi brincadeira o ofício que eu enviei (em 28 de janeiro); mas não, é caso sério. É tão sério que foi estipulado no ofício (da reitora, convidando à discussão do estatuto, só no dia 22 de abril) que até o dia 8 de maio nós tínhamos que enviar os nomes (para a comissão de discussão do estatuto). No dia 6 estavam os nomes lá: o meu, Raphael Victor, como presidente, e o do diretor de mídia do grêmio, Eric Moreira, que é o suplente.

Folha - Entre o seu ofício, solicitando participar da discussão do estatuto, e o da reitoria, fazendo o convite quase três meses depois, vocês também fizeram protestos nano IFF, não foi?
Rafhael - Sem resposta da reitoria, nós começamos uma campanha na escola, para exigir as eleições, desde o dia 7 de abril. Colocamos faixas lá.

Folha - Sim. Na verdade, foi através das fotos das faixas de protesto, que vocês, do grêmio estudantil, enviaram pela internet, que a Folha ficou sabendo do caso. Mas, quanto a essas faixas colocadas no IFF, "Abaixo a ditadura!" não é uma crítica muito forte ao grupo da reitoria?
Rafhael - Ditadura não é só você impor uma coisa. Para mim, ditadura é você restringir qualquer coisa, você tirar espaço de participação.

Folha - Você negar direito a voz?
Rafhael - Exatamente, negar direito a voz.

Folha - E vocês, estudantes, entendem que isso foi negado?
Rafhael - Bem, se eu, como representante eleito dos estudantes, da classe estudantil, do ensino médio e técnico do Instituto, a gente não participar de um processo fundamental, como a Cibele diz que é fundamental o estatuto, e não ser respondido, acho que isso é, sim, falta de voz.

Folha - Mas vocês não são os únicos representantes dos estudantes. Como você mesmo disse, o grêmio estudantil Nilo Peçanha representa só o ensino médio e técnico do campus Campos-Centro. Mas há lá também o Diretório Central dos Estudantes (DCE), que representa os estudantes do ensino superior.
Rafhael - Sim, mas maioria dos estudantes é do técnico e médio. O presidente do DCE é o Marcel Cardoso (estudante do curso superior de Geografia), que fala tanto de democracia, que a democracia é construída no dia-a-dia, com o diálogo, e ele foi indicado a participar do conselho diretor, por portaria. Ele disse que foi indicado por Luiz Augusto (Caldas), com o nome dele aprovado em Brasília, mas eu não acho isso democrático, você indicar o nome de um representante, sem eleição. Legal, ele poderia ser, só que na época eu também fazia o curso superior de Geografia no IFF (que deixou para fazer o curso técnico de Telecomunicações), e eu não lembro de ter votado no Marcel, não. Ele foi eleito no DCE. Para o conselho diretor, ele foi indicado por portaria.

Folha - Pelo que você fala, parece haver uma divisão política entre os estudantes, com o DCE, sob comando do Marcel, mais ligado à reitoria. Na sua visão, seria isso?
Rafhael - Com certeza. Não tem dúvida de se falar isso. Porque se você está no IFF, você vê o Marcel enfurnado na reitoria, usando o computador da direção, telefonando direito. A gente começou a fazer um protesto, lá, pela área do micródromo, que é a sala onde ficam os computadores, que ao meu ver, e aos olhos de todos os estudantes, estavam obsoletos; computadores antigos, internet lenta, teclado duro, que agarra, mouse de bolinha ainda, sem dado para USB, cinco folhas semanais para imprimir. Então, numa escola que é de educação tecnológica, computadores obsoletos para o uso dos alunos, eu acho algo contraditório. Nós víamos a necessidade de um novo micródromo, com novos computadores, nova tecnologia. O grêmio estudantil começou a fazer um abaixo assinado e, em dois dias, conseguimos reunir 600 assinaturas. Aí, eu pensei assim: o DCE representa o ensino superior, mas, lá, o micródromo é para todo mundo, para técnico, para médio e superior. Então fiz um ofício e chamei o Marcel, e ele se recusou a participar do movimento. Aí, eu pensei: tem rabo preso.

Folha - Você diz que Marcel é ligado ao grupo da reitoria. E você, está ligado a algum dos grupos que, a partir da dissidência de Jefferson, polarizam a política interna do IFF, de maneira muito semelhante à história política recente do próprio município de Campos?
Rafhael - O único grupo a que eu pertenço é a UJS, que é a União da Juventude Socialista. Sou diretor municipal do UJS. Como todo grupo tem coisas boas e ruins, eu procuro tirar as coisas boas e levar para o IFF.

Folha - O UJS não apoiou Rosinha na última eleição para prefeito?
Rafhael - Sim, apoiou a prefeita Rosinha. Nessa época, eu tinha pedido afastamento, porque não concordava. Depois, eu voltei e fui eleito diretor do UJS.

Folha - Sim, mas voltando à política interna do IFF, quem vê de fora pode identificar três grupos: o grupo da reitoria (que está no poder desde de 94, caiu no ostracismo no segundo mandato do Luiz Augusto e voltou a dar as cartas com Cibele), o grupo do Paulo Caxinguelê, que sempre foi de oposição, e o do Jefferson, criado a partir da dissidência dele e de vários outros nomes importantes. Você ou o grêmio estão ligados a algum desses grupos?
Rafhael - Posso falar um negócio com você, aqui? O único grupo que eu pertenço é dos estudantes. Não tenho nenhum contato político com Cibele, Roberto José (diretor pro tempore do campus Campos-Centro, indicado por Cibele), com Jefferson. Adoro o Jefferson, foi triste ver ele saindo como saiu. Mas mais triste ainda foi o pedido de exoneração do professor Amaro Falquer (ex-pró-reitor de Administração e Planejamento). Vi estudantes chorarem na escola, porque ele e o Jefferson eram aqueles professores que iam além da sala de aula; conversavam com a gente sobre a nossa vida. Adoro também o Caxinguelê, o Roberto José. Eu votei e fiz campanha para Cibele, que foi eleita diretora geral (feita reitora a partir da lei 11.892) com o Jefferson como seu vice. Fiquei até o último minuto de apuração, na quadra. Tenho foto disso. Tenho camisa, tenho boné, tenho bandana, tenho tudo. A questão aqui não é pessoal, é democracia, entendeu? Que o Roberto José possa ser diretor, mas que possa ser eleito, que eu possa votar nele. Eu não votei nele.

Folha - Sim, mas é um direito de Cibele indicar o diretor pro tempore durante os 180 dias de discussão do estatuto e do PDI.
Rafhael - Sei, direito dela indicar, mas, veja bem, se ela mesmo fala, se a lei fala que tem que ter estatuto, eu sempre bato nessa tecla: por que não chamou o grêmio para participar? Queria saber por que ela não chamou.

Folha - Mas ela não chamou?
Rafhael - Chamou três meses depois. Então, alguma coisa tem. Se você tem idéia de fazer uma eleição tal dia, tal data estipulada, e você não começa a movimentar, a mobilizar a classe estudantil; a comunidade acadêmica não vê essa transição, essa idéia de ter eleição, automaticamente vai se entender o quê? Que você não quer fazer eleição.

Folha - Mas vai haver eleição, no máximo até novembro de 2009, como a secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec) definiu no ofício 780-A, de 18 de maio, que a Folha noticiou, com exclusividade, no dia 26. Aliás, a reitoria não divulgou isso na escola?
Rafhael - Eu não vi, nem pendurado no mural de avisos, nem foi encaminhado ao grêmio.

Folha - Estranho, pois segundo informação do Setec, o ofício teria sido encaminhado ao IFF, no máximo, no dia 19.
Rafhael - Eu, sinceramente não vi, nem soube. Mas eu sempre tive certeza de que haveria eleição. Eu não sou contra ninguém, sou a favor dos estudantes. Pode ser Roberto José o diretor, pode ser Jefferson, mas que eu possa votar neles, que eu e os estudantes possamos participar da eleição e votar.

5 comentários:

Miguel Henrique disse...

Participei do grêmio na década de 90 e estou orgulhoso em saber que o Grêmio Nilo Peçanha continua forte e na luta pelos alunos! Parabéns a gestão atual!

Fernanda Barreto disse...

Rafhael, sábias tuas palavras ao se afirmar ao lado de um grupo: O grupo dos estudantes! O grupo daqueles que fazem movimento estudantil por ideal e não para ficar bem na foto com os diretores da escola! Força Sempre! Saudações a quem tem coragem!

Jéssica Carvalho disse...

O Raphael Falou e disse apenas a verdade! É isso ai camarada, estamos na luta! UJS hoje, amanhã e sempre! Saudações

Fabiano Seixas disse...

Fiquei muito feliz ao ler as considerações do Rafhael, demostrou maturidade política e uma visão ampla das coisas que acontecem no IFF! Me venceu, jurava que ele não tinha conteúdo para uma página inteira! :P A luta está apenas começando e dentro de alguns dias vamos colocar o bloco na rua e mostrar nossa forma de fazer movimento estudantil! Saudações Estudantis!

gaby disse...

E ainda vem um tal de marcelo do dce, dizer a que ele faz movimento estudantil. só fica enfurnamo dentro do gabinete q eu vejo.

força rafael!