Memória do Movimento Estudantil - I















A compositora chilena Violeta Parra, em uma canção imortalizada na voz de Mercedes Soza, dizia-nos:

“Que vivan los estudiantes, jardín de nuestra alegria, son aves que no se austan de animal ni policía”

Lembrar o movimento estudantil é rememorar sonhos, possibilidades, utopias, contestação e coragem. Refazer a trajetória do próprio Brasil, em seus melhores momentos. Recuperar a luta abolicionista e republicana do século XIX, as campanhas nacionalistas do “petróleo é nosso”, a resistência e o enfrentamento à ditadura militar, a campanha pelas “diretas já” e a destruição de Collor.

Trazer para a juventude uma boa lembrança: a de valores que fizeram a humanidade ter uma imagem melhor de si mesma e que, de alguma maneira universais, estabeleceram para vários povos do planeta a possibilidade de se constituírem fortes e com compaixão. Em tempos de crise, quando o fundamentalismo conservador hegemoniza a maior parte do mundo globalizado, e quando apesar de todo nosso desenvolvimento científico e tecnológico continuamos assolados pela fome, miséria, desigualdades e injustiças, reconstruir essa memória da esperança e da coragem, da força da juventude, é um contraponto necessário e urgente para o enfrentamento de nossos dilemas contemporâneos.
A juventude brasileira, e ouso dizer a de todo o planeta, enfrenta atualmente uma vasta crise que, lamentavelmente, retirará de toda a humanidade a possibilidade do novo se não for rapidamente, retirará de toda a humanidade a possibilidade do novo se não for rapidamente debelada. No Brasil, jovens dos setores populares estão sendo vítimas de um estado de violência desmetida, compatível aos períodos de guerra, sendo assassinados sistematicamente por instrumentos à margem dos processos civilizatórios. A solidão e da desesperança, contaminam a juventudade do primeiro mundo, sendo o suicídio de jovens um indicador epidemiológica assustador. Sem juventude, onde estará nossa alegria?

O nosso país é curioso! Nos graves momentos que vivemos em nossa história política quando não vemos, como a Graúna de Henfil, mais nenhuma esperança, os jovens estudantes como uma fênix nos ressuscitam e nos amimam com a possibilidade de um novo tempo. Assim foi quando o Brasil destitiu Collor, um movimento forte e alegre, com jovens de cara pintada que recuperaram o valor das cores, indevidamente apropriadas pela nefasta. Retomaram para o nosso povo a beleza do colorido, e nos impediram de ter que viver em um país cinza e triste.
Nunca perdi a esperança na juventude. Bebo na fonte de violeta Parra:

“Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con todo su sabrosura.”


Também não é possivel rememorar o movimento estudantil sem destacar a brava e guerreira União Nacional dos Estudantes, a UNE, “nossa força e nossa voz”, que desde sua fundação nos anima e inquieta. Tivemos grandes heróis brasileiros nascidos na UNE e aqui aprovo a decisão dessa entidade pela escolha do nome de seu centro de memória: Honestino Guimarães. É preciso reconhecer que o projeto grandioso de recuperação da memória estudantil originou-se com a bela idéia de Felipe Maia, então Presidente da UNE.

Tenho a compreensão de que a agenda política do movimento estudantil não se esgota em “problemas de estudante”.

O movimento estudantil nunca foi uma organização estritamente corporativa. Suas preocupações transcenderam os bancos escolares e debruçaram-se o Brasil. A Editora do Museu da República e a Fundação Roberto Marinha apresentam este livro, fruto de um seminário promovida em São Paulo sobre o movimento estudantil. Nós temos a consciência republica de que muito ainda precisa ser feito para efetivamente “fundarmos a Republica Brasileira”, promover a igualdade e combater a injustiça, a desesperança e a violência que demolem nossos alicerces como nação e país.

E creiam, brasileiros e brasileiras, isso não será possível sem a juventude e sem os estudantes.

Como ‘me gustan los estudiantes”: força, coragem e esperança.

Ricardo Vieiralves
Diretor do Museu da República, contracapa do livro “Memória do Movimento Estudantil”

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