Rascunhos de uma crônica do cotidiano goytacá

"No novo tempo, apesar dos perigos, da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta, pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver"
Ivan Lins / Vitor Martins

Primeiras horas da manhã de uma quinta-feira tomo meu rápido café, arrumo minha pasta e vou para junto com o meu pai para o trabalho, um momento ímpar, que acabou se convertendo numa conversa proveitosa.
Falávamos das coisas nosso do cotidiano, principalmente o transporte coletivo em Campos dos Goytacazes, uma realidade presente em nossas vidas, pois ele é um conduto autônomo de veículo automotivo, taxista, a mais de 20 (vinte) anos atuando na praça.
Passávamos pela Avenida Nazário Pereira Gomes, no sentido Guarus X Centro, quando a nossa frente vai um micro-ônibus da Empresa São João, detentora do monopólio das linhas que fazem a cobertura do meu bairro, fazendo suas paradas freqüentes e apanhando seus passageiros, sendo eles pagantes ou os "0800" ou "quebra-molas", como são chamados os estudantes, idosos ou quem de alguma forma goza da gratuidade no embarque nos coletivos).
Num instante, passa por nós, um Santana Azul, que aparentemente era um "ex-combatente" (assim é chamado o veículo circulante em Campos, que um dia foi táxi na cidade do Rio de Janeiro), e por não mais estar dentro das condições adequadas e legais exigidas para circular na capital do Estado, e acabam fazendo parte da precária frota dos veículos clandestinos que fazem as chamadas "lotadas", algo não muito diferente dos ônibus que aqui circulam. A gente realmente se "sente da roça" quando vai ao Rio de Janeiro e vê com os próprios olhos os veículos de transportes coletivos, são novos, com ar condicionado, rampas para cadeirantes e portadores de necessidades especiais.
Voltando ao Santana...
Um rapaz de aproximadamente, 25 anos era o condutor do veículo, que em determinado momento, ultrapassara o micro-ônibus da São João, visivelmente com o intuito de apanhar os passageiros pagantes e deixando para trás os "0800" ou "quebras-molas", para o microônibus, que tem apenas 01(uma) ou 02 (duas) vagas para gratuidades.
Como não havia passageiro pagante, o condutor do "ex-combatente", deixa o micro seguir rumo ao Centro da planície Goytacá e faz uma parada num bar da esquina para tomar um café e repetir as mesmas atitudes.
A cena não era uma surpresa para mim e meu pai, convivemos com este quadro a mais de 01(um) ano, pois desde e queda da Ponte General Dutra, convivemos com essa realidade.
Algumas vezes meu pai pensou em abandonar a profissão de taxista, tendo em vista que a competição com os clandestinos era injusta, pois para ele trabalhar as exigências eram inúmeras, ter o carro legalizado, com IPVA pago e Taxas da EMUT, Taxa de Vistoria do Taxímetro no Instituto de Pesos e Medidas, INMETRO, Taxa de inspeção do sistema do Gás Natural Veicular, pagamento do aluguel de um dos pontos e outras que nem lembro e nunca imaginara que fosse preciso para transportar seres humanos.
Um dia ao chegar a casa, após enfrentar o engarrafamento na Ponte da Lapa, até então a única ponte operante, meu pai desabafa:
- Vou vender um dos carros e comprar uma besta ou uma Kombi para fazer lotada, assim não está dando mais, não consigo fazer a "féria" que cubra o investimento para ter um táxi na praça.
Minha mãe, evangélica, vira para ele e diz:
- Juarez, ora, peça a Deus para lhe dar forças que tudo vai dar certo, é apenas uma fase e você não é o único, não coloque fora o que você está conseguindo com o suor do seu serviço, esse tipo de serviço clandestino não combina com um pai de família como você.
Meu pai vira-se para minha mãe e diz:
-Lucia, está difícil, não entendo esse descaso, porque eles não resolvem logo essa questão das pontes para que eu e meus companheiros possamos trabalhar dignamente e ainda tem esse monte e piratas que não respeitam nada e ninguém.
(...)
Graças a Deus, o tempo passou, algumas coisas mudaram, não foi preciso vender um carro, mas foi necessário se adequar à nova realidade, trabalhar ainda mais, rever os valores das corridas, aprender a lidar com a competição, muitas vez sempre praticada com valores humanos, como respeito, educação e ética.
Após tudo isso, descobriu-se o porque de retratar tanto sobre as pontes de Campos: A ansiedade de ver meu pai trabalhando tranqüilo, no vai e vem que faz ligando seus passageiros aos extremos da cidade, honrando com seus compromissos em dia e fazendo valer o papel de um pai, numa família.
(Continua)

Ps. Ao professor Roberto Moraes, meu grande motivador e incentivador a pensar numa Campos melhor para todos!

Um comentário:

Roberto Moraes disse...

Agradeço fabiano,

A sua homenagem. Bom saber que a semente tem sido semeada em terreno fértil. Vamos em frente.

Um grande abraço,