Filme: O Caçador de Pipas

Vamos assistir?

Dirigido por Marc Forster, o livro tenta transpor para a tela grande a mesma pureza e singularidade do livre de Khaled Hosseini. E felizmente Marc Forster consegue isso com algum sucesso. Até porque, a história não é tão simples como as histórias que o cinema geralmente apresenta. Todos os clichês hollywoodianos ficam do lado das salas de cinema.


O Caçador de Pipas, diferente de blockbusters de sucesso e dos apelos do cinme americano, é acima de tudo uma boa história, e uma história que precisa ser contada. Aproveitar o rastro de um best-seller foi só mais uma desculpa para mostrar a um país preconceituoso como os Estados Unidos, que o Afeganistão, um dos novos inimigos da América de Bush, pode, enfim, conter uma boa história, e que história! Depois de cometer um ato cruel na infância movido por sua imaturidade, um futuro escritor, atormentado pelo remorso, busca reparar seus erros embora saiba que os danos causados jamais poderão ser revertidos. A adaptação do roteiro ficou a cargo de David Benioff e conta a história de Amir, um afegão refugiado nos Estados Unidos que, às vésperas de lançar seu romance de estréia, recebe uma ligação de um amigo da família que agora se encontra no Paquistão.

O telefonema leva a um longo flashback (mas fique tra nquilo, a tela não vai tremer e nem fumaça de gelo seco vai aparecer).

O telefonema nos remete à infância de Amir e à sua amizade com Hassan, filho do empregado da casa. Pertencente à etnia Hazara, Hassan é visto com preconceito pelas crianças locais, que também antagonizam Amir por não aprovarem as atitudes de seu pai, Baba, que insiste em proteger seus empregados. Isso acaba levando a um incidente violento que culmina no rompimento da amizade entre as crianças. Para piorar, com a invasão do exército russo, Baba, anti-comunista, é obrigado a deixar o país ao lado do filho, que, anos depois, descobre o destino de seu velho amigo Hassan.

A história aborda a instabilidade política no Afeganistão ao longo das décadas nas quais a trama se passa, mas o filme, tal qual o livro, observa a guerra com os russos e a conseqüente dominação do regime taliban. A trama, centrada na amizade entre os jovens Amir (Ebrahimi) e Hassan, mostra um relacionamento extremamente complexo, que mostra que a amizade, às vezes, se confunde com a submissão. Uma dos trechos mais marcantes do livro, que o diretor Marc Forster conseguiu passar com maestria para a tela, foi quando Hassan afirma que “comeria terra” se Amir assim ordenasse e, quando este pergunta se isto é verdade, Hassan confirma, mas indaga, angustiado: “Você me pediria isso?”, levando seu amigo-patrão a negar, indignado. Pipas? - O filme encontra, no campeonato de pipas que ocorre em determinado instante, uma metáfora para a forma com que os dois garotos enxergam o mundo: enquanto Amir é um mestre no controle da pipa, cortando a linha de seus oponentes com destreza, Hassan mostra-se hábil na tarefa de encontrar as pipas derrubadas pelo amigo. O filme é repleto de diálogos tocantes e de trechos que fazem questãod e deixar claro a inocência dos protagonistas. Em dado momento Amir cria uma história sobre um homem cujas lágrimas podem ser transformadas em pérolas e que, para provocar o próprio choro, mata a esposa. “Por que ele não descascou uma cebola?”, questiona o pequeno menino Hazara, sem hesitar, deixando o sonhador Amir sem palavras. São momentos como estes que montram a sensibilidade do escritor Hosseini, e do roteirista Benioff, ao compor seus personagens e ao contar uma história que, finalmente, consegue emocionar tanto quanto o livro.

A história do livro o caçador de pipas


Grande sucesso editorial nos Estados Unidos em 2004, onde vendeu mais de 2 milhões de cópias, O Caçador de Pipas está presente na lista dos mais vendidos pelo New York Times e Publishers Weekly há mais de um ano, com publicação em 29 países, além de venda dos direitos para o cinema. Em tempos onde o nome Afeganistão é freqüentemente associado ao terrorismo e a figuras como Osama bin Laden, o livro de Khaled Hosseini ajuda a vencer preconceitos. Khaled nasceu em 1965 em Cabul, Afeganistão, mas vive nos Estados Unidos desde 1980. Médico de profissão, aproveitava as horas vagas para escrever. Foi nesses intervalos que surgiu O Caçador de Pipas. Hosseini escreveu em sua casa na Califórnia, a milhares de quilômetros de Cabul, cidade que não visitava desde que sua família havia imigrado. Só voltou ao Afeganistão quando o livro estava impresso, prestes a chegar às lojas. O caçador de pipas é uma narrativa insólita e eloqüente sobre a frágil relação entre pais e filhos, entre os seres humanos e seus deuses, entre os homens e sua pátria. É antes de tudo uma história de amizade e traição, que nos leva dos últimos dias da monarquia do Afeganistão às atrocidades de hoje. O filme que não é uma outra história, não supera o livro. Mas é fiel à sua essência.

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